Por que o crime organizado virou problema de compras

Empresas ligadas ao PCC tinham CNPJ ativo, nota fiscal e clientes de verdade. O vínculo com a facção não aparece em certidão, mas deixa rastros.

Por Sérgio Cavalcanti, Marketing e redator da Linkana 7 min de leitura

Em 28 de agosto de 2025, o Ministério Público de São Paulo e a Receita Federal deflagraram a Operação Carbono Oculto. No mesmo dia, a Polícia Federal deflagrou as operações Quasar e Tank. As três miraram um esquema do PCC no setor de combustíveis. Só os postos de combustível ligados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024, segundo a Receita Federal. Os alvos iam de postos e distribuidoras a fintechs e fundos de investimento.

Toda essa operação de lavagem e financiamento do crime organizado funcionava a céu aberto, usando meios lícitos para esconder os verdadeiros proprietários e manter o controle do dinheiro de origem ilícita. Eram empresas com CNPJ ativo, contrato e nota fiscal. Vendiam, prestavam serviço e tinham clientes de verdade, empresas que compravam delas sem saber o que acontecia por trás.

Para evitar surpresas, o processo de homologação já confere o fornecedor: o CNPJ e a situação cadastral, as certidões, o quadro de sócios e as listas de empresas inidôneas e de sanções. Se está tudo em ordem, aprova.

O problema é que o envolvimento de um fornecedor com facção não aparece em certidão.

E aí você se pergunta: a minha base de fornecedores está exposta? A resposta mais honesta é que provavelmente sim. O crime organizado entrou na economia formal pela porta dos fornecedores, e isso fez dele um risco de compras, que pode prejudicar a sua empresa. A boa notícia é que esse risco deixa rastros, e o profissional de compras pode aprender a reconhecê-los.

Como a facção “virou” empresa

O PCC nasceu em 1993, num presídio de Taubaté, no interior de São Paulo. Já o Comando Vermelho é mais antigo: nasceu em 1979, no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. As duas facções cresceram dentro do sistema prisional e se espalharam pelo país com o tráfico de drogas como principal fonte de renda. Mas também diversificaram seus ganhos. O Mapa das Organizações Criminosas de 2024, da Secretaria Nacional de Políticas Penais, identificou 88 facções no Brasil, com atuação em setores como combustíveis, bebidas, cigarros, apostas, criptoativos, fintechs e serviços em geral.

Só que o dinheiro do crime tem um limite: para ser usado, ele precisa parecer limpo. E o caminho mais eficiente para isso é a economia formal. Uma empresa de verdade, com faturamento, funcionários e clientes, mistura receita legal com receita ilegal e devolve tudo como se fosse lícito.

Para quem compra, a pergunta útil não é em quais setores a facção atua, e sim onde esses setores cruzam com a sua base de fornecedores. Se a sua empresa contrata frete, abastece frota, terceiriza limpeza ou segurança, ou paga por meio de fintechs, esse cruzamento provavelmente já existe. São justamente os setores apontados como os mais expostos em coluna da InfoMoney. No frete, o crime cobra pedágio e impõe fornecedores em algumas regiões. Nos combustíveis, postos controlados pelo PCC sonegam imposto e lavam dinheiro do tráfico. Nos serviços terceirizados, a operação muitas vezes acontece em território dominado pela facção. E nas fintechs, o risco está no dinheiro, porque elas podem ser usadas para simular operações e esconder quem é o verdadeiro dono.

Da segurança pública ao risco de fornecedor

Ninguém imagina a própria empresa assinando contrato com uma facção diretamente e intencionalmente. E quase nunca é assim que acontece.

O caminho costuma ser mais longo, e cada elo a mais esconde melhor quem está na outra ponta. A empresa contrata uma transportadora que trabalha bem, entrega no prazo e tem todas as certidões. Essa transportadora subcontrata outra, que opera numa região dominada pelo crime e paga pedágio para rodar. Ou o fornecedor tem um sócio que é laranja de alguém que nunca aparece no papel.

Luciana Silveira, especialista em governança e compliance, resumiu isso numa coluna na InfoMoney: o fornecedor tem um CNPJ, mas o risco pode ter outra identidade.

Até pouco tempo, esse era um risco que muita empresa deixava para a polícia resolver. A Operação Carbono Oculto, em 2025, mostrou o tamanho do problema. E em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, com efeito a partir de junho. Isso colocou novos itens na análise de quem homologa fornecedor.

O promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco do Ministério Público de São Paulo, explicou à BBC News Brasil o que isso significa: pessoas, grupos e instituições financeiras que tiverem algum tipo de colaboração ou transação com essas facções podem ter bens e ativos congelados, inclusive fora dos Estados Unidos.

E sanção não depende de condenação. Roberto Uchôa, pesquisador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, disse à mesma reportagem que a decisão de sancionar é do governo americano, e que ser citado numa investigação pode bastar.

Nessa situação, o risco vai além da multa. Há bloqueio de bens, restrição bancária e um dano à reputação que pode ser maior que o financeiro. A REAG Investimentos, um dos alvos da Carbono Oculto, precisou vender ativos e transferir o controle da empresa. A empresa nega irregularidades. E há a responsabilidade de quem decidiu: segundo análise publicada na Migalhas, executivos e até profissionais de compliance podem ser investigados quando tinham informação suficiente para perceber o problema e não agiram.

Ou seja, o risco de facção chegou ao dia a dia de quem aprova fornecedor.

Como reconhecer os sinais

Em abril de 2026, a ICC Brasil publicou, em parceria com a Controladoria-Geral da União, o Guia para Empresas sobre Gestão de Riscos Associados a Organizações Criminosas. O guia traz uma lista de sinais de alerta para fornecedores, clientes e parceiros.

Alguns desses sinais já são usados de parâmetro por quem homologa fornecedor. Outros quase nunca entram na checagem. Com esse novo risco de ter um fornecedor conectado ao crime organizado, quatro desses sinais merecem uma atenção especial.

  • Troca frequente de sócios ou diretores sem justificativa clara. Uma empresa estável não muda de dono a cada semestre.
  • Sócio com capacidade financeira incompatível com o faturamento da empresa. O guia cita como exemplo o sócio que recebe benefício de programa social de distribuição de renda.
  • Vários CNPJs registrados no mesmo endereço. Uma sala comercial que abriga dezenas de empresas é um padrão comum em estruturas de fachada.
  • Empresa recém-aberta contratada para um contrato relevante, sem o histórico que justifique a escolha.

Há ainda sinais que costumam passar como rotina. Em evento da Capital Aberto, o conselheiro Gustavo Lucena contou que muita empresa trata fornecedor com cadastro incompleto como pendência de papelada. Para ele, isso já é um sinal de alerta: a pergunta certa é “por que a documentação ainda não veio?”

Um desses sinais a Linkana já checa na entrada: o tempo de funcionamento. A plataforma sinaliza fornecedores com menos de 24 meses de existência, o mesmo corte recomendado pelo guia.

E há um exemplo ainda mais concreto. A Linkana tem uma consulta que verifica se o fornecedor está entre as 268 empresas investigadas nas operações Quasar, Tank e Carbono Oculto. A operação do começo deste texto já é um item de checagem.

A Linkana também consulta mídias negativas sobre o fornecedor. Depois da aprovação, a plataforma continua renovando as consultas e registra cada mudança na linha do tempo do fornecedor. A decisão sobre o que fazer continua com a sua equipe.

Perguntas que a sua área de compras deveria responder hoje

O guia da ICC Brasil e da CGU deixa claro que não existe uma resposta única para esse risco. Mas existem perguntas que toda área de compras deveria conseguir responder hoje.

Se um fornecedor crítico trocasse de sócio amanhã, quem na sua empresa ficaria sabendo?

Quantos dos seus fornecedores ativos foram checados só no dia em que entraram na base?

Se o nome de um fornecedor aparecesse numa investigação hoje, quanto tempo levaria até a área de compras saber?

Um fornecedor que passou limpo pela homologação só volta a aparecer se alguém continuar olhando. Na sua base, quem está olhando?

Se alguma dessas respostas travou, é por aí que o trabalho começa.

Empresas como Raízen, Suzano e XP usam a Linkana para homologar e acompanhar fornecedores. Se quiser ver como isso funciona na sua base, agende uma demonstração.

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