Análise Financeira de Fornecedores: qual a importância, como fazer e principais indicadores.

Em momentos econômicos de alta volatilidade, problemas financeiros nas empresas se tornam comuns. Em 2020, mais de 700 mil empresas fecharam as portas por conta do coronavírus. Isso evidencia a importância de acompanhar de perto a saúde financeira de toda sua cadeia de fornecimento. Um fornecedor estratégico que fechar as portas com certeza acarretará em um impacto operacional enorme no seu negócio, um risco que pode ser mitigado com uma boa análise financeira de fornecedores.

Com a evolução da tecnologia dentro do mercado de compras, esse acompanhamento se torna cada vez mais fácil e barato. O que antes era visto como impacto estratégico alto, mas difícil de operacionalizar, passa a ser acessível dentro da rotina de compras.

O que é análise financeira de fornecedores?

Em todo processo de due diligence de fornecedores, vários aspectos são analisados para reduzir riscos inerentes à serviços prestados ou produtos ofertados. A análise financeira de fornecedores é um desses processos, que valida a saúde financeira do fornecedor.

Na análise financeira de fornecedores são levadas em conta quaisquer informações referentes à saúde financeira do fornecedor que podem impactar de alguma maneira o risco de fornecimento. Dentre essas informações solicitadas, as mais comuns são:

  • Avaliação de score de bureau de crédito
  • Consulta de dívidas protestadas e Protestos 
  • Certidões de regularidade tributária e  trabalhista
  • Indicadores de demonstrativos financeiros

Qual a relevância de uma análise financeira na gestão de fornecedores?

Dentro do processo de análise de risco de fornecedores, os riscos de fornecimento ou riscos operacionais são as principais preocupações do comprador. Esses são os riscos que impactam no dia a dia e refletem em má qualidade, atraso ou flutuação de preço na entrega desse fornecedor. 

De acordo com Renan Rosauro, gerente sênior de procurement da BASF, “A análise financeira traz segurança no relacionamento. Segurança financeira vem se tornando um fator ainda mais relevante no processo de escolha de fornecedores dado que nos últimos anos, o mercado vem sofrendo com crises macroeconômicas e volatilidades altas, tanto para baixo como para cima.”

A incerteza da situação econômica do país impulsiona ainda mais a quantidade de risco gerada na relação de fornecimento entre empresas, tornando praticamente obrigatório esse acompanhamento próximo, visando manter a sustentabilidade da cadeia de fornecimento.

Com relação a isso, Renan ressalta: “Ultimamente as demandas do mercado, vem variando mais do que o histórico. Além da macroeconomia, cada vez mais temos situações que são imprevisíveis, como o caso da pandemia. Há muita mudança de rumo e cada vez mais brusca. A preparação para esse tipo de cenário é essencial, de forma a garantir um rápido ajuste à nova situação. Sem saúde financeira é impossível gerir a volatilidade que há e garantir ou um ajuste rápido em frear o suprimento e ainda mais importante, em garantir um rápido retorno quando necessário.”

Além da redução do risco financeiro do fornecedor, um acompanhamento da saúde financeira do fornecedor também influencia em uma melhor política de supply chain finance. Essa boa prática ajuda a manter a sustentabilidade da cadeia de fornecimento, disponibilizando mais recursos para parceiros estratégicos. Como foi o caso da Renner, varejista do setor de roupas, que criou linhas de crédito para antecipar o pagamento de recebíveis, liberando R$400 milhões em crédito para evitar que seus fornecedores fechassem.

Além do risco de fornecimento, existem diversos riscos trabalhistas que podem acontecer, caso o fornecedor seja um prestador de serviços para sua empresa. Quando um fornecedor vai à falência e não consegue pagar seus deveres trabalhistas e fiscais, toda essa obrigação é repassada para o contratante. Isso significa que, caso seu fornecedor de serviços não consiga pagar suas dívidas trabalhistas, você terá que pagá-las por ele.

Como fazer uma análise financeira de fornecedores?

O primeiro passo para fazer a análise financeira de fornecedores é estruturar um processo para coleta dessas informações. O benefício da análise financeira vem do acompanhamento periódico das informações e de não fazer apenas uma vez. Dado isso, é importante parametrizar em sua ferramenta de gestão de fornecedores quais documentos você vai querer acompanhar e em qual periodicidade.

Para estruturar esse processo, é importante identificar quem são seus fornecedores mais estratégicos através de uma matriz de risco de fornecedores. Após essa segmentação, exigir dos fornecedores mais estratégicos um controle mais rígido e ter um controle mais flexível para demais fornecedores.

Exemplo disso são fornecedores que tem um spend (valor contratual) alto com sua empresa. Normalmente, uma representação de 80% do valor contratual gasto com fornecedores está concentrada em 20% da base ativa de fornecedores. Esses fornecedores normalmente são bastante estratégicos e deveriam ter uma análise financeira feita de perto.

Outro exemplo de fornecedores que devem ter análise financeira feita com maior rigor são os que fornecem matéria prima (materiais diretos) para sua empresa. Esses fornecedores representam um risco direto em parada de linha de produção e impacto em seu produto final. Existem outras categorias de fornecimento que exigem maior atenção como prestadores de serviços terceirizados e logística.

Fornecedores de indiretos, como material de escritório, tendem a exigir uma análise financeira menos rígida, uma vez que o impacto do não fornecimento é baixo.

Para a BASF, esse processo acontece em 100% dos fornecedores. De acordo com Renan, “A avaliação financeira é mandatória para todos os fornecedores, seja via busca em sites específicos como o Serasa, ou via envio de dados de balanço do fornecedor para um calculo especifico que montamos, onde o resultado é um score que nos indica a saúde financeira do fornecedor. A única exceção, são as startups em early stage, onde não pedimos essa análise se a empresa tem menos de 4 anos de vida.”

Avaliação de Score de Crédito 

A avaliação de score de crédito é resultado do cálculo feito através dos hábitos de pagamento e relacionamento de empresas com o mercado de crédito. Nessa avaliação, são validadas informações como:

  • Pagamentos de contas em dia
  • Histórico de dívidas negativadas
  • Relacionamento financeiro com empresas
  • Dados cadastrais atualizados.

Existem algumas empresas que fazem análise de score de crédito, como BoaVista, SPCBrasil ou Quod, porém a ferramenta mais utilizada atualmente é da Serasa.

Por ser uma análise mais aprofundada, levando em consideração no seu score já protestos, certidões negativas e processos de dívidas, as análises de score de risco tendem a ser uma solução mais completa para quem não possui uma construção de score interno. Além disso, é um ótimo termômetro se outras análises, como análise de balanço patrimonial, deveriam ser feitas ou se não há necessidade disso.

A avaliação de score de crédito é uma maneira simples de acompanhar a saúde financeira do fornecedor, então é recomendada para toda a base. Caso sua base seja muito grande, o custo dessa análise pode subir, então pode ser segmentada de acordo com a  categoria de fornecimento também. Ou seja, apenas categorias estratégicas serem acompanhadas pelo score de risco enquanto as outras categorias usam critérios mais simples, como certidões de dívidas ou protestos.

Cartórios de Protestos 

A análise de protestos também é uma maneira de avaliar a saúde financeira do fornecedor. Um protesto acontece quando uma empresa registra no cartório de protestos uma dívida não paga pelo fornecedor. Isso significa que o fornecedor não cumpriu com sua parte no pagamento de uma dívida, logo, perde credibilidade na relação de fornecimento.

Apesar de ser um indicador que não traduz somente a saúde financeira do fornecedor, vale a pena ser acompanhado. O não pagamento de títulos pelo fornecedor pode ser um sinal claro de problemas financeiros.

Certidões tributárias (FGTS, CND Federal/Estadual/Municipal)

Existem diversas certidões que podem ser acompanhadas para mitigar riscos operacionais e reputacionais na gestão de fornecedores. Dentre elas, as certidões tributárias têm muita correlação com a saúde financeira do fornecedor.

Certidões como o certificado de regularidade do FGTS e certidão negativa de débitos trabalhistas (CNDs) servem como um farol para problemas financeiros de um fornecedor. Elas conseguem ser indicativos de que o fornecedor não está cumprindo com seus deveres de pagamentos tributários. Caso um fornecedor esteja com problemas nessas certidões, é um ótimo indicativo de que uma análise financeira mais profunda deve ser feita.

Análise de balanço financeiro de fornecedores: seus principais índices e indicadores

A análise do balanço financeiro de um fornecedor é sem dúvidas a principal análise a ser feita, quando estamos falando de mitigação de risco financeiro. Nela é possível ter um panorama completo e dar uma visibilidade futura sobre a saúde financeira do fornecedor.

Quando falamos da análise de demonstração de resultados (DRE) e balanço, existem inúmeros indicadores que podem ser acompanhados. Quais são os principais indicadores financeiros para fornecedores:

  1. Liquidez
  2. Grau de Endividamento
  3. Grau de Dependência
  4. Índice de Solvência
  5. Garantia de Capital de Terceiro
  6. Margem Líquida
  7. Evolução do Ativo Imobilizado
  8. Evolução da Receita Bruta
  9. Evolução do EBITDA
  10. Termômetro de Insolvência de Kanitz

Sendo que os primeiros 4 indicadores são os mais relevantes quando estamos falando de risco financeiro de fornecedores.

  1. Liquidez

O índice de liquidez tem extrema importância quando falamos em análise financeira de fornecedores. Esse índice avalia a capacidade de um fornecedor pagar suas dívidas e obrigações.

Existem 4 desdobramentos da liquidez:

  • Liquidez corrente: seu resultado indica quantos reais a empresa possui em bens e direito de curto prazo (Ativo Circulante) para as dívidas de curto prazo que a empresa tem a pagar (Passivo Circulante).
  • Liquidez seca: semelhante à liquidez corrente, porém desconsiderando o valor de estoque do ativo circulante.
  • Liquidez imediata: semelhante à liquidez corrente, porém desconsiderando o valor de estoque e das contas a receber. É o índice mais conservador dos 4.
  • Liquidez geral: analisa a saúde financeira da empresa de forma global, sendo mais abrangente, porém com foco no longo prazo, enquanto os outros índices focam mais no curto prazo. 

Os dois principais índices de liquidez que devem ser acompanhados de fornecedores são as geral e corrente. Assim é possível ter um panorama de curto e longo prazo com relação à saúde financeira do mesmo.

É considerado que uma liquidez acima de 1 é considerada como a ideal.

Os cálculos da liquidez corrente e geral são:

Liquidez Corrente = (Ativo Circulante) / (Passivo Circulante)

Liquidez Geral = (Ativo Circulante + Realizável de Longo Prazo) / (Passivo Circulante + Exigível de Longo Prazo)

  1. Grau de Endividamento

Outro indicador de extrema importância para acompanhar é o grau de endividamento do fornecedor. Nesse indicador avaliamos o total de dívidas que o fornecedor tem com relação ao seu patrimônio líquido total. 

Também é importante analisar qual a relação entre o endividamento de curto e longo prazo, uma vez que uma grande parcela de dívida com um prazo menor pode gerar grande risco de liquidez, ou seja, da capacidade da empresa de geração de caixa para pagar a dívida.

É considerado que o grau de endividamento abaixo de 50% é o ideal.

O cálculo do grau de endividamento é:

Grau de Endividamento = (Passivo Circulante) / (Patrimônio Líquido)

  1. Grau de Dependência

O grau de dependência mede qual o impacto do seu contrato ou futuro contrato no faturamento total de seu fornecedor. Ele tem extrema importância quando falamos de sustentabilidade da cadeia de suprimentos, uma vez que sua flutuação de demanda pode impactar fortemente o fornecedor que é financeiramente dependente de você.

É considerado que o grau de endividamento abaixo de 30% é o ideal.

O cálculo do grau de dependência é:

Grau de Dependência = (Valor Anualizado do Contrato com o Fornecedor) / (Faturamento Anual do Fornecedor)

  1. Índice de Solvência

Também conhecido como índice de alavancagem financeira, o índice de solvência é o quarto principal indicador para se acompanhar em uma análise financeira de fornecedores. Assim como o índice de liquidez, o índice de solvência também avalia a capacidade da empresa de pagar suas dívidas, porém no longo prazo. Mais especificamente, é avaliado se o fornecedor  possui fluxo de caixa suficiente para gerenciar suas dívidas de acordo com seus vencimentos

É considerado que o índice de solvência acima de 1 é o ideal.

O cálculo do índice de solvência é:

Índice de solvência = (Lucro Líquido + Depreciação) / (Dívidas de curto prazo + Dívidas de longo prazo)

Também pode ser calculado como:

Índice de solvência = (Ativo total) / (Passivo Circulante + Passivo Não Circulante)

  1. Demais Indicadores Financeiros

Todos os demais indicadores listados ajudam a compor a análise financeira de fornecedores, analisando características de eficiência financeira e crescimento da empresa, lembrando que o foco da análise devem ser nos índices de liquidez, grau de endividamento, grau de dependência e índice de solvência.

Passando rapidamente pelos demais, temos:

A Garantia de Capital de Terceiro avalia quanto existe de patrimônio líquido para cada capital de terceiro em sua empresa. É recomendável que seja sempre superior a 100%.

A Margem Líquida avalia a relação entre lucro líquido da receita e seu faturamento líquido total, o que é um bom indicador da eficiência financeira do negócio. É recomendável que seja sempre superior a 0%.

A Evolução do Ativo Imobilizado mostra quanto estão crescendo os bens essenciais para que o fornecedor consiga exercer suas atividades. É recomendável que seja sempre superior a 0%.

A Evolução da Receita Bruta mostra o quanto o fornecedor está crescendo financeiramente ou se está estagnado. É recomendável que seja sempre superior a 0%.

A Evolução do EBITDA mostra o quanto o fornecedor está se tornando mais eficiente financeiramente ao longo do tempo. É recomendável que seja sempre superior a 0%.

O Termômetro de Insolvência de Kanitz é uma ferramenta utilizada para medir a probabilidade de falência de uma empresa. É recomendável que seja sempre entre 0 e 7, preferencialmente acima de 3.

Quais os principais desafios em fazer análise financeira de fornecedores e como resolvê-los?

Embora a análise financeira de fornecedores nos traga muitas informações sobre o risco inerente ao fornecimento, existem diversos fatores que dificultam essa análise. Esses desafios estão vinculados com a operacionalização dessa análise, ou seja, transformação em um processo escalável. 

Desafio 1: Solicitação de informações sigilosas ao fornecedor

Como as informações do balanço financeiro do fornecedor são sigilosas, existem fornecedores que não se sentem à vontade para compartilhá-la. O ideal é pedir esse tipo de informação apenas sob 2 condições: caso o fornecedor seja categorizado como crítico ou estratégico ou caso o mesmo apresente problemas nas outras análises financeiras feitas. Em ambos os casos, a área de compras possui mais argumentos para a coleta da informação frente ao fornecedor.

Desafio 2: Veracidade da informação enviada

Além de ser sigilosa, validar a veracidade dessa informação também é uma das dificuldades de fazer essa análise. Em caso de empresas abertas na bolsa de valores, essa informação é pública, então o problema é menor, caso contrário a validação é mais difícil. É importante garantir que todos os pontos contábeis estejam corretos, como o total de ativos se igualar ao total de passivos e demais verificações que podem ser feitas.

Desafio 3: Despadronização da estrutura contábil

Outro problema comum é relacionado à despadronização da estrutura contábil de um fornecedor. Existem maneiras diferentes de acompanhar índices semelhantes, até mesmo na nomenclatura feita dos campos a serem preenchidos. Por isso é importante que o formulário que o fornecedor irá preencher seja devidamente estruturado e tenha descrições das informações que serão preenchidas. Outra maneira de lidar com esse problema é ter um dicionário de palavras similares, para fazer o cruzamento no momento da análise.

Desafio 4: Recorrência da análise financeira de fornecedores

Como destacamos anteriormente, somente fazer a análise financeira do fornecedor uma única vez não funciona como um controle efetivo. É preciso criar um processo para fazer análises periódicas das informações, uma vez que as situações econômicas podem mudar rapidamente. De acordo com Renan Rosauro: “Estamos estudando usar dados não anuais, como endividamento público, ou até relatórios trimestrais como referência. Para que isso funcione de maneira sustentável, precisamos de suporte ferramentas como a Linkana que nos ajude a estrutura a coleta de dados de maneira simplificada e se possível, já com análise embutida.”

Relato dos desafios e soluções na BASF

Quando questionado se já havia ocorrido algum incidente na BASF que pudesse ter sido evitado com uma melhor análise financeira de fornecedores, Renan comenta: “Sim, e muito provavelmente irá ocorrer novamente. Os dados financeiros atuais, tipicamente são dados anuais, ou seja, fotos de um passado que pode estar distante dependendo do momento em que a análise é realizada. Já tivemos casos que a situação inicial no momento da análise era boa, mas ao longo do ano se deteriorou e tivemos que realizar a troca do fornecedor por outro mais robusto. O inverso também ocorre, em menor escala, mas ocorre. Já avisamos fornecedores da situação ruim que se recuperaram ao longo do ano e continuam conosco após um longo período de ajustes.”

Embora os desafios existam, cada vez mais existem novas soluções surgindo no mercado para ajudar a resolver esses problemas. Ainda sobre esses desafios, Renan comenta: “Os desafios variam, conforme o tamanho do fornecedor. Os grande tipicamente tem situações melhores, mas podem ser mais arrojados em endividamento, o que pode acarretar em maiores riscos a operação, já os pequenos e médios, muitas vezes não tem uma estruturação contábil/ financeira boa, e algumas vezes precisamos assessorá-los em como montar um demonstrativo de resultados e explicar as consequências. Todo esse processo é burocrático e moroso. Nesse ponto uma ferramenta como a Linkana ajuda muito em obter dados de maneira mais ágil e estruturada para uma rápida análise.”

Marcelo Abreu

Marcelo Abreu

Marcelo Abreu é Co-Fundador e Chief Product Officer (CPO) da Linkana. Graduado em engenharia mecânica na UNESP, com mais de 5 anos de experiência em gestão de produtos digitais, mentor de lideranças de produto na TERA e Instrutor de discovery de produto na PM3. Passou por grandes empresas como Eaton, Ambev, na área de gestão de produção, gente e gestão e tecnologia e depois de estruturar do zero e liderar a área de produtos na Kenoby, agora é aficcionado pelo mundo de startups.