Sustentabilidade na cadeia de fornecedores (ESG): Por que investir?

Nesse artigo vamos descobrir um pouco mais sobre esse tema e entender porque investir na sustentabilidade na cadeia de fornecedores é tão importante.

A sigla ESG vem do inglês e significa Environmental, Social and Governance que, traduzindo, significa Ambiental, Social e Governança (ASG).  

Em resumo, trata-se de três fatores centrais que norteiam uma empresa a realizar ações que busquem sustentabilidade em seus negócios e consequentemente causem impacto social, com foco no longo prazo.

Esse termo vem conquistando bastante espaço nas grandes empresas ao redor do mundo e tem se tornado cada vez mais relevante para a análise de uma empresa na hora de uma contratação.

O nascimento do ESG

Embora seja uma prática que ganhou mais visibilidade na última decada, nos anos 60 alguns grandes investidores começaram a adotar critérios de investimentos socialmente sustentáveis, excluindo do seu portfólio, por exemplo, empresas que estivessem ligadas ao regime de apartheid sul-africano ou a setores relacionados a tabaco, álcool e armas.

Em 1971, houve a criação do fundo de investimento “Pax World Fund” que implementou a regra de apostar apenas em empresas que tinham destaque em temas relacionados à responsabilidade social. A finalidade era excluir interações e investimentos em empresas que de alguma forma contribuíram com a Guerra do Vietnã.

Em 2004, o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan escreveu para mais de cinquenta CEOs das maiores instituições financeiras do mundo com o intuito de se reunirem e encontrarem maneiras de integrar o ESG ao mercado financeiro, gerando um relatório chamado “Who Care Wins” de Ivo Knoepfel – foi aí que o termo ESG surgiu.

Outro momento considerado como um marco para consolidar as práticas sustentáveis foi a entrada em vigor do Acordo de Paris no qual 55 países que representavam pelo menos 55% das emissões globais aderiram ao acordo formalmente. 

Atualmente, há 187 países signatários desse acordo, que, em consenso, decidiram combater as mudanças climáticas de forma a impactar de forma menos danosa.

Vamos falar de cada fator envolvido?

1. Fator Ambiental: 

O Fator Ambiental faz referência ao uso sustentável e proteção dos recursos naturais de forma que não prejudique o meio ambiente, o que tem bastante a ver com poluição e gestão de resíduos. Outro ponto importante é a emissão de gases de efeito estufa como o gás metano e gás carbônico.

O instituto de pesquisas americano Climate Accountability Institute realizou um estudo que chegou à conclusão de que um grupo de 20 empresas é responsável por mais de um terço das emissões de gases causadores do efeito estufa em todo o mundo desde 1965, estando a Petrobras na 20ª posição.

Diante do cenário atual, a preocupação ambiental é latente e cada vez mais as nações têm buscado implementar políticas para estimular as práticas sustentáveis. 

Para resumir bem uma prática do Estado para implementar o ESG como forma de proteção ao fator ambiental, a União Europeia estabeleceu o Regulamento Taxonomia que disponibiliza às empresas e investidores uma linguagem padrão que identifique as atividades econômicas consideradas sustentáveis a partir de seis objetivos ambientais, sendo eles:

  • Mitigação das alterações climáticas
  • Adaptação às alterações climáticas
  • Utilização sustentável e proteção dos recursos hídricos e marinhos
  • Transição para uma economia circular (reutilização, reciclagem, etc.)
  • Prevenção e controlo da poluição
  • Proteção e restauração da biodiversidade e dos ecossistemas

O Regulamento Taxonomia aplica-se a Estados Membros e União Europeia, intervenientes no mercado financeiro que disponibilizam produtos financeiros e empresas sujeitas à obrigação de publicar demonstração não financeira.

2. Fator Social:

Temas de grande importância nos dias atuais (e vem ganhando cada vez mais espaço a cada dia que passo) como inclusão e diversidade devem ser pautas presentes em uma empresa que busca contribuir com a sustentabilidade no mundo moderno.

Segundo levantamento realizado pelo site vagas.com, no Brasil, 47,6% dos negros se encontram em cargos de nível operacional/auxiliar, enquanto apenas 0,7% ocupam cargos de direção.

Mas isso não significa que basta contratar pessoas negras, por exemplo, e o problema estará resolvido. Significa também agir de tal forma que deixe a competição entre os funcionários justa para o crescimento na empresa e, também, que todo o ambiente ao redor da empresa seja de respeito.

Ou seja, não apenas seus funcionários, mas também terceirizados, fornecedores e todos que de alguma forma fazem parte do ecossistema da empresa devem respeitar a diversidade, inclusão, direitos humanos, a comunidade, entre outros.

Também são considerados fatores sociais a privacidade, proteção de dados e relações com comunidades.

3. Fator de Governança: independência do conselho, política de remuneração da alta administração, diversidade na composição do conselho de administração, estrutura dos comitês de auditoria e fiscal, ética e transparência

Empresas que possuem metas ESG são bastante valorizadas. Por exemplo, no mercado financeiro, as empresas que tratam esse tema com relevância em seus relatórios são sinônimos de empresas que se adequaram ao mundo moderno, que respeitam as novas visões e se colocam numa posição de relevância para contribuir na construção de um mundo mais sustentável.

O Instituto Ethos aponta que mulheres marcam presença em pouco mais de 10% das posições de conselho diretor – se excluir herdeiras, o número é ainda menor.

No ano passado, o Banco Goldman Sachs anunciou que não conduzirá processos de abertura de capital de empresas que não tenham pelo menos uma mulher na diretoria. Na Califórnia, há uma lei estadual que multa empresas públicas em cem mil dólares caso haja apenas homens em seus conselhos diretores.

Qual o impacto dentro da sustentabilidade na cadeia de fornecedores quando você se preocupa com investimentos em ESG nela?

Há diversos impactos causados na cadeia de fornecedores quando a empresa se preocupa em investir em fornecedores que se preocupam com as questões relacionadas ao ESG.

Impacto reputacional

Quando falamos de risco reputacional, nada mais é do que a possibilidade da empresa perder valor de mercado devido a práticas não aceitáveis no mundo atual, sejam relacionadas a ética, moral, sustentabilidade, comportamento discriminatório de seus colaboradores, entre outros. 

É de fundamental importância que haja uma excelente gestão de fornecedores para identificar tais riscos reputacionais relacionados ao ESG. 

Por exemplo, uma empresa que possua em sua cadeia um fornecedor que desmata ilegalmente a Amazônia poderá estar diretamente ligada, pelo menos midiaticamente falando, a esse ato criminoso e não sustentável. Consequentemente pode haver a possibilidade de seu valor de mercado cair bastante, além dos outros riscos legais, financeiros, entre outros.

Por isso, o impacto reputacional está diretamente ligado à sustentabilidade na cadeia de fornecedores.

Impacto financeiro

Realizar uma análise financeira detalhada para saber se o fornecedor terá condições financeiras de atender o acordo contratado pela empresa é fundamental. Mas, onde entra o ESG nessa questão tão específica?

Estudos demonstram que empresas que investem em sustentabilidade e diversidade geram mais lucro e atendem a mais clientes, visto que o mundo está mudando e, por exemplo, dois terços dos americanos preferem adquirir produtos de empresas que adotem práticas sustentáveis

Ou seja, uma empresa que investe em práticas sustentáveis está à frente daquelas que não investem e consequentemente poderão possuir uma situação financeira melhor comparada àquelas que nada fazem.

Além disso, a Credit Suisse publicou relatório demonstrando que empresas que possuem mulheres em posição de liderança (pelo menos uma mulher na diretoria) obteve retorno de investimentos melhor do que empresas que possuem apenas homens na liderança. 

Outro ponto relevante é o que falamos anteriormente: há alguns anos grande parte dos fundos de investimentos apenas aportam recursos em empresas que adotam práticas de ESG e o tratam como tema importante em seus relatórios: “As questões ESG se tornaram muito mais importantes para nós como investidores de longo prazo”, afirma Cyrus Taraporevala, presidente e CEO da State Street Global Advisors.

Ou seja, esse ponto também está bem ligado à sustentabilidade na cadeia de fornecedores.

Impacto operacional

Outro fator de risco importante é o risco operacional, que é aquele ligado ao dia a dia da empresa, seja um prestador de serviços terceirizado que esteja irregular e que gere riscos trabalhistas, seja o atraso na entrega de um produto, entre outros. 

Nesse aspecto, um fornecedor que tem como foco o respeito aos pilares do ESG como por exemplo a sustentabilidade corre menos riscos de atrasar uma entrega, por exemplo.

Um caso prático seria do fornecedor que não cumpre regras ambientais e tem sua atividade suspensa por uma autoridade ambiental. Ele provavelmente não conseguirá atender o contrato fielmente e poderá colocar em risco as entregas de produtos/serviços da empresa que o contratou.

Outro exemplo prático seria de uma empresa contratar fornecedor que se utilize de mão-de-obra escrava – uma empresa que tem como foco respeitar o ESG não poderia cometer tal erro, afinal deve sempre realizar uma análise detalhada das práticas de cada fornecedor. Em tal exemplo do trabalho escravo, vários riscos apareceriam, desde operacionais, reputacionais até o financeiro.

Porque investir na sustentabilidade na cadeia de fornecedores (ESG)

Larry Fink, presidente e CEO da BlackRock, fundo de investimentos responsável pela gestão de US$ 8 trilhões em ativos no mundo, afirma que ao longo de 2020, as empresas com perfil voltado ao ambiental, social e de governança (ESG) tiveram desempenho superior – 81% de uma seleção global representativa de índices sustentáveis tiveram desempenho acima do esperado. Para a direção da BlackRock, para um negócio ser bem-sucedido a longo prazo, ele deve possuir pilares ESG.

A KPMG, em seu relatório “ESG em tempos de crise”, afirma que “empresas com valores, estruturas de governança fortalecidas e focadas em questões ESG tendem a permanecer resilientes, em meio a esse ambiente de crise, e a desfrutarem de uma vantagem competitiva no mercado”.

Conforme relatório da XP, mais de US$30 trilhões em ativos sob gestão (AuM, sigla em inglês para “Assets Under Management”) são gerenciados por fundos que definiram estratégias sustentáveis.

Além disso, o comportamento dos consumidores tem mudado, forçando as empresas a se reinventarem e adotarem práticas que estejam de acordo com o mundo atual. Um levantamento com consumidores de todo o mundo realizado pela Nielsen, mostra que 81% dos consumidores acreditam fortemente que as empresas devem ajudar a melhorar o meio ambiente e que mais de 60% dos consumidores estão muito ou extremamente preocupados com a poluição do ar, da água, uso de embalagens, resíduos de alimentos, etc.

Outro fator importante é a regulação cada vez mais presente na maior parte dos governos do mundo em relação ao fator ambiental, por exemplo. Empresas que não adotarem práticas relacionadas a ESG terão, cada vez mais, restrições para operar e menos espaço no mercado.

Diante de todo esse cenário, fica evidente que é fundamental as empresas evoluírem e adotarem práticas de ESG para sobreviverem a longo prazo e gerarem mais retorno financeiro. 

É inimaginável uma empresa adotar tais práticas sem que seus fornecedores também adotem-nas – isso é o básico, afinal, empresas que se relacionam com qualquer tipo de fornecedor sem realizar, por exemplo, a due diligence deles, podem ter sérios prejuízos dos mais diversos tipos possíveis.


Por isso, é tão importante investir em uma boa gestão de fornecedores e garantir que eles compartilhem de visões similares às da empresa que os contrata.

Sustentabilidade na Cadeia de Fornecedores – como implementar?

Há algumas formas de implementar elementos do ESG na cadeia de fornecedores. Uma das estratégias é implementar questionários e formulários para os fornecedores responderem questões relativas a ações de diversidade, sustentabilidade, ambientais, entre outros. 

Além disso, é importante obter documentos relativos a produtos que esse fornecedor fornece. Por exemplo, se ele vende móveis de madeiras, há alguns certificados que demonstram que a madeira é certificada e extraída de forma sustentável, etc.

Se a sua empresa não tem prática de ESG na cadeia de fornecedores, a Linkana é uma plataforma que centraliza todos esses tipos de informações e gera outputs (resultados) relevantes acerca da sustentabilidade na cadeia de fornecedores.

Paulo Lamego

Paulo Lamego

Advogado, formado na Universidade Católica de Pernambuco, ex-consultor da Deloitte, conta com mais de cinco anos de experiência na área tributária. Atualmente é Analista de Compliance na Linkana em São Paulo/SP.